Após uma semana eletrizante de Carnaval no Rio de Janeiro, chegamos a São Paulo em um ônibus noturno e pegamos um táxi até o nosso hotel. Havíamos reservado uma estadia no Hotel Piratininga. Havia algo estranho no lugar. Bem localizado, com um toque de sofisticação, recepção 24 horas e um café da manhã gratuito e farto — e, ainda assim, mais barato que várias espeluncas na periferia. Parecia bom demais para ser verdade. Estávamos preparados para uma surpresa.

A surpresa não veio no check-in — o hotel era exatamente como descrito e mostrado, um verdadeiro achado. A surpresa real veio pouco antes da chegada, quando ficou claro o motivo do preço tão baixo: ele estava localizado bem no meio da Cracolândia!

Cracolândia é um notório mercado aberto de drogas no coração de São Paulo, conhecido pela alta concentração de uso de crack e moradores de rua. Há décadas, essa área é o epicentro da crise das drogas no Brasil, com centenas de usuários se reunindo em acampamentos improvisados, fumando em público e vagando em fluxo constante pelas ruas. Intervenções policiais e ações governamentais tentam, repetidamente, “limpar” a região, mas o problema apenas se desloca de quarteirão em quarteirão. Para os paulistanos, a Cracolândia é tanto uma crise humanitária quanto um símbolo das profundas desigualdades sociais da cidade — um lugar que raramente é visitado por acaso.
Como nós acabamos ali por acaso — e não apenas de passagem, mas hospedados por três dias — em vez de nos sentirmos intimidados, aproveitamos a oportunidade para conhecer esse lado tão distinto e até fascinante — num sentido mórbido — da maior metrópole brasileira.
A zona central da Cracolândia era delimitada, de forma vaga, pela Estação da Luz, Rua Brigadeiro Tobias, Avenida Ipiranga, Avenida Rio Branco, Avenida Duque de Caxias e Rua Mauá. O epicentro ficava na Rua dos Protestantes, a poucos metros do nosso hotel.
Centenas de usuários de crack se amontoavam dia e noite em um estacionamento cercado, vigiados por equipes da polícia tática. Em certo momento, enquanto observávamos de longe, um tiro ecoou de um dos extremos do quarteirão, fazendo todos os policiais correrem em direção ao som.

Viciados vagavam incessantemente pelas ruas imundas, vestidos em farrapos ou apenas de roupa íntima. Muitos estavam descalços; outros usavam sapatos destruídos — ou apenas um pé — ou meias furadas. Carregavam seus pertences: os mais sortudos em carrinhos de feira, os demais em grandes sacos nas costas, com colchonetes enrolados debaixo dos braços. Todos tinham pelo menos um cachimbo de metal, geralmente na mão ou atrás da orelha. Longas filas se formavam nas calçadas para receber pão das instituições de caridade.




Os humores variavam drasticamente. No auge da brisa, muitos dançavam e tiravam a roupa ao som do samba vindo dos bares decadentes. Quando o efeito passava, tornavam-se agressivos, brigando e roubando entre si. No auge da abstinência, corriam em desespero — suando, tremendo, com os olhos arregalados. Vasculhavam lixo e bueiros em busca de pedras perdidas, moedas ou qualquer coisa vendável. Pediam esmola ou atravessavam as ruas carregando TVs ou objetos aparentemente furtados. Outras, principalmente mulheres e mulheres trans, vagavam pela frente da estação de trem com minissaias e botas de salto alto.


Quanto à forma como nos encaravam — dois estrangeiros sozinhos com câmeras penduradas —, na maioria das vezes simplesmente nos ignoravam. Só quando estavam no auge do efeito da droga vinham brincar ou pedir algo, de forma leve. No resto do tempo, era como se fôssemos invisíveis.
Nos sentimos inseguros na Cracolândia? Sinceramente, não. Havia policiais literalmente em cada esquina. A simples ideia de nos assaltar já poderia levá-los presos. Além disso, não estávamos cercados por traficantes armados — eram viciados desnutridos e miseráveis. Mesmo que tivessem tido uma arma algum dia, provavelmente já haviam trocado por crack. Usar força física não seria uma ameaça real para um homem em plena saúde, e não pareciam exatamente coordenados o suficiente para agir em grupo.

Para ser justo, minha tranquilidade pode vir da experiência. Passei muito tempo frequentando a Praça Omonia em Atenas — cenário, aliás, do meu romance Tainting Passions. No auge da decadência, há vinte anos, aquele lugar era ainda pior do que a Cracolândia de hoje.
É claro, se você vem de bairros seguros e nunca presenciou nada parecido, a Cracolândia vai te chocar. Mas se tiver curiosidade sobre a realidade de milhões de dependentes químicos pelo mundo e estiver de passagem por São Paulo, não tenha medo de andar por lá e ver essa realidade com seus próprios olhos.
A Cracolândia é um espelho brutal de uma realidade que existe em muitos cantos do planeta — uma ferida aberta de vício, pobreza e desespero. Mas mesmo em meio ao caos, ainda há humanidade: a cumplicidade entre quem nada tem, a resiliência de quem sobrevive contra todas as probabilidades e os esforços de quem tenta ajudar.

Fotos
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